Manhã de 5 de janeiro de 2011, no Recife. O agente federal Jorge Washington Cavalcanti de Albuquerque, conhecido como “Careca”, 57 anos, acaba de prender um traficante, com 17 kg de pasta-base de cocaína. A prisão não era novidade na ficha do experiente policial, com mais de 30 anos de serviços prestados à PF.
Em um táxi, “Careca” e o agente Sílvio Romero Moury Fernandes dos Santos seguem com o traficante preso, na tentativa de encontrar os compradores da droga e prender os demais integrantes da quadrilha. Não chegam a cumprir seu objetivo. Em um ponto da BR-232, policiais civis que também estariam investigando o mesmo caso, abriram fogo contra os dois. Jorge Washington morreu logo após dar entrada no hospital. O outro policial também foi alvejado, mas sobreviveu.
Passado um ano do trágico episódio, as circunstâncias do fato ainda não foram totalmente esclarecidas. O malfadado Inquérito Policial nº 013/2011, instaurado pela Superintendência Regional da Polícia Federal em Pernambuco, está parado, sem conclusão sobre o episódio. Oitivas intermináveis, laudos periciais não concluídos e um delegado sem muita pressa impediram que o calhamaço de papéis fosse relatado e os detalhes da operação que culminou com a morte do policial federal ainda não foram elucidados.
A morte do agente federal Jorge Washington Cavalcanti de Albuquerque está permeada de fatos obscuros que merecem ser esclarecidos. O relato do motorista do táxi que transportava os dois policiais é revelador. Segundo ele, o Gol branco que levava os policiais civis parou logo à frente do táxi. De repente, o veículo teria dado marcha ré e logo após os seus ocupantes desceram e começaram a abrir fogo contra o carro onde estavam os policiais federais. O motorista disse que, em nenhum momento, os policiais civis se identificaram.
DÚVIDAS - Algumas questões ainda estão à espera de respostas: Houve falha na comunicação entre as instituições policiais? Por que os policiais civis se preocuparam em recolher cápsulas deflagradas no local? Por que um dos policiais, identificado como delegado da Polícia Civil de Pernambuco, recolheu a arma do APF morto? Por que o local não foi preservado até a chegada dos peritos? Por que a arma do agente federal morto foi apresentada posteriormente, com sinais de disparo? Foram encontrados resíduos de pólvora na mão do policial morto? Estas e outras perguntas o inquérito que tramita na PF já deveria ter esclarecido.
Conforme informações extraoficiais obtidas pela Fenapef, uma das diligências importantes que ainda não foi concluída no inquérito é um laudo do Instituto Nacional de Criminalística (INC), da própria PF, em Brasília. Outro laudo que estaria pendente, a cargo do Núcleo de Identificação (NID) da superintendência da PF em Pernambuco, teria sido juntado recentemente aos autos do inquérito.
A Secretaria de Defesa Social de Pernambuco, cujo titular é o delegado federal Wilson Salles Damázio, à época, divulgou uma nota à imprensa informando que tudo seria apurado com rigor no âmbito administrativo- disciplinar, pela Corregedoria Geral da Polícia Civil, que manteria a população pernambucana atualizada com relação aos desdobramentos da apuração. Na prática, a apuração ainda não ocorreu. Ou suas conclusões não foram divulgadas.
Procurado pela Agência Fenapef, o secretário Wilson Salles Damázio, através de sua assessoria, informou que o processo administrativo disciplinar instaurado pela Polícia Civil depende das conclusões do inquérito da Polícia Federal. De acordo com a assessoria do secretário, as autoridades pernambucanas aguardam o resultado das investigações da PF para encaminhar a apuração interna sobre a conduta dos policiais civis.
COBRANÇA - O presidente do Sindicato dos Policiais Federais de Pernambuco (Sinpef/PE) e diretor parlamentar da Fenapef, Marcelo Pires Teixeira, informou que a entidade tem feito gestões junto ao Ministério Público Federal e ao Superintendente Regional da PF no estado, com objetivo de cobrar a conclusão das investigações. “Perdemos um valoroso colega e até agora a Polícia Federal, que era sua casa, não conseguiu concluir o IPL e elucidar as circunstancia dessa tragédia”, lembra Marcelo.
As pressões feitas pelo sindicato começam a surtir efeitos. De acordo com o presidente do Sinpef/PE, o atual superintendente da PF, delegado Marlon Jefferson de Almeida, há pouco mais de cinco meses no cargo, está adotando providências para acelerar o caso. Não está descartada a possibilidade de substituição do delegado responsável pela condução do inquérito. Em seu lugar, assumiria outro delegado, de São Paulo, que no início das investigações atuou no caso, de forma mais célere.
A direção do Departamento de Polícia Federal, em Brasília, preferiu não se manifestar sobre o caso. Segundo a assessoria de imprensa da direção-geral, como o IPL corre no âmbito da SR/PE, esta é que deve falar sobre a investigação. O atual diretor executivo do DPF, o segundo na hierarquia do órgão, delegado Paulo de Tarso Teixeira era o superintendente em Pernambuco na época da morte do policial.
A Superintendência Regional da Polícia Federal em Pernambuco, até o fechamento da reportagem, também não se manifestou sobre o assunto, embora tenha sido contatada desde a semana passada.
O presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais, Marcos Vinício Wink, frisa que a morosidade da PF em apurar as circunstâncias e eventuais responsabilidades em relação à morte de um colega, durante uma operação policial, constrangem os policiais federais de todo o País. “Essa situação revela descaso e incompetência, além de burocratização e ineficiência do inquérito policial. Se essa inércia existe na investigação sobre a perda de um agente da própria casa, o que pensar de tantos outros inquéritos que tramitam há anos sem solução", critica Wink.
MISSA – O Sindicato dos Policiais Federais em Pernambuco agendou uma missa para marcar um ano do falecimento do agente Jorge Washington Cavalcanti de Albuquerque. Estão sendo convidados familiares, amigos, colegas de trabalho, lideranças sindicais, parlamentares, além de jornalistas. A cerimônia foi marcada para a próxima quinta-feira, 5 de janeiro de 2012, às 19 horas, na Igreja Nossa Senhora da Piedade, localizada na Rua Capitão Lima, no bairro de Santo Amaro, em Recife. O Sinpef/PF também está organizando um ato em protesto pela demora nas investigações sobre o crime. A entidade distribuirá um manifesto aos pernambucanos, além de confeccionar camisetas com foto do policial morto e faixas.
Fonte: Agência Fenapef