O secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, 54, completa cinco anos no cargo, recorde no Estado.
Beltrame afirma que começa a colher frutos no combate à corrupção policial, mas admite que a validade do cargo está no fim. "A gente tem planos e fica na expectativa de que eles aconteçam. Mas tem prazo de validade. Você cansa. Aqui não se tem o direito de errar"
Folha - Há uma crise entre as polícias Civil e Militar?
José Mariano Beltrame - Podemos ter alguns desencontros, talvez não seja o melhor dos mundos. Mas a palavra crise não cabe.
O caso do coronel Djalma Beltrami [preso por suspeita de corrupção] e outros demonstram a necessidade de se reforçar as corregedorias?
Isso já é consequência do reforço. Começou com a Operação Guilhotina [que prendeu dezenas de policiais no início de 2011). Reestruturamos e tiramos as corregedorias da lógica da reação.
É o caminho para a solução?
O caminho é longo. Na cúpula das instituições não há qualquer tolerância. O combate tem que ser forte e visível. Dar percepção às pessoas de que não se tolera mais isto.
Este caminho começa apenas após cinco anos. Por quê?
Os problemas do Rio são muitos e históricos. Precisávamos mostrar que podíamos dar uma resposta rápida. Não fiz no início porque tínhamos que melhorar índices de criminalidade e a sensação de segurança. Mostrar que havia um plano: UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) e sistema integrado de metas.
Qual o maior problema hoje?
A corrupção é um problema sério, mas a milícia é um problema muito sério. A corrupção está dentro da milícia. Quando combate a milícia, você combate a corrupção.
Não é mais fácil combater milícia do que tráfico?
Para pegar o traficante você trabalha com a materialidade. A milícia é desvio de conduta, ninguém testemunha contra eles. As pessoas podem ser identificadas, mas é mais complexo conseguir provas.
Qual é o projeto para 2012?
Educação. Cumpriremos o que vínhamos sendo cobrados: capacitação e treinamento. Professores pagos com R$ 65 a hora/aula, reformulação dos currículos e um banco de talentos. Vou ver o resultado disto no cargo? Não. Mas lancei a semente. Tem gente que entrou na polícia há dez anos e nunca mais se reciclou.
Este ano tem eleição...
Meu título [de eleitor] permanece em berço esplêndido, em Santa Maria (RS).
Teme que a secretaria possa ser usada politicamente?
O grande ganho do Rio foi a despolitização da segurança. Não só das polícias, mas da cadeira de secretário. Ninguém vai pedir qualquer operação deste tipo. Sabem que, se pedirem, eu vou embora.
O senhor já é o secretário com mais tempo nesta cadeira. Isso tem prazo para acabar?
Por mim, diria que é hora de ir. Como dizem na linguagem comum: "Sair por cima".
Fonte: Folha de S. Paulo